
Às vésperas da estação de monta, critérios de seleção genética e experiências de campo com a raça Santa Gertrudis mostram o que considerar na escolha de reprodutores para melhorar os resultados da pecuária.
Com a chegada da estação de monta, a escolha dos reprodutores está entre as decisões que mais podem influenciar os resultados econômicos da pecuária de corte. Peso à desmama, fertilidade e adaptação às condições da propriedade são fatores que precisam entrar nessa conta, assim como a avaliação genética dos animais.
Em Teodoro Sampaio, na Bahia, o engenheiro agrônomo e produtor rural Stélio Portinoi, pecuarista há mais de 40 anos, encontrou nos reprodutores Santa Gertrudis uma alternativa para melhorar o desempenho dos bezerros em cruzamentos industriais. Em um dos lotes, os animais cruzados desmamaram aos oito meses com peso médio de 259 quilos. “Escolhi reprodutores da raça depois de uma pesquisa em que tive a informação de que produziam bezerros rústicos e pesados ao apartar, e isso se confirmou plenamente no campo”, afirma.
Além do ganho de peso, Portinoi destaca a adaptação dos touros às condições da propriedade, que possui pastagens de massapê e tanques escavados que, ao secarem, deixam pontas de solo capazes de provocar problemas nos cascos. Segundo ele, os animais não apresentaram lesões e mantiveram alta libido e excelentes índices de prenhez, tanto no cruzamento com vacas Nelore quanto com fêmeas F1 Angus, no chamado tricross. “Os bezerros nascem pequenos e ganham peso rápido, desmamando pesado, tanto os machos quanto as fêmeas. O resultado tem sido tão expressivo que nossa propriedade virou referência regional na venda de bezerros de cruzamento industrial, com compradores vindo procurar os lotes diretamente aqui”, comemora.
A experiência de campo, porém, não dispensa critérios objetivos na seleção dos reprodutores. O registro de Puro de Origem (PO) comprova que a genealogia do animal é conhecida, mas não garante superioridade genética para características produtivas. Por isso, a escolha deve considerar tanto a avaliação genética quanto os atributos raciais e funcionais necessários ao trabalho a campo.
“Nem todo macho PO é touro. Pelo contrário, só uma parte deles deverá ser considerada assim, aqueles que forem geneticamente superiores, que participem de programas de melhoramento e tiverem as condições funcionais e raciais dentro do que se espera para um touro trabalhar com eficiência a campo”, explica Maury Dorta, supervisor de raças taurinas e compostas do programa Geneplus.
Entre as ferramentas disponíveis para orientar essa escolha estão as Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), que estimam o desempenho dos descendentes de um reprodutor em características avaliadas pelo programa de melhoramento. Para dimensionar o impacto econômico, o produtor pode considerar a diferença estimada para peso à desmama e ao sobreano, multiplicá-la pelo número esperado de filhos e pelo preço do quilo vivo. Segundo Dorta, diferenças de 10, 15 ou até 20 quilos por produto podem representar um impacto significativo na receita, dependendo dos animais comparados e das características avaliadas.
A seleção também precisa contemplar todas as etapas da estação de monta. Embora o uso de reprodutores melhoradores na Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) represente um avanço, os touros utilizados no repasse também influenciam o potencial genético da safra. “O ideal é que os touros de repasse também possam entregar produtos que também sejam superiores, ou seja, animais melhoradores e para isso não há outra solução a não ser buscar a melhor genética disponível e investir nesses touros de repasse participantes de programas de melhoramento”, afirma o especialista.
A escolha das características prioritárias, por sua vez, depende dos objetivos de cada propriedade. O programa de melhoramento da raça Santa Gertrudis avalia diferentes critérios, do peso ao nascimento às características de carcaça. Cabe ao produtor identificar os indicadores mais relevantes para seu sistema de produção e para o tipo de animal que deseja entregar ao mercado. Publicado semestralmente, o sumário de touros da raça reúne informações que auxiliam na comparação dos reprodutores e na tomada de decisão.
A importância do desempenho dos cruzamentos também é observada em outras regiões do país. Em Zé Doca, no Maranhão, o pecuarista Ricardo Alves, que cria há 15 anos, utiliza touros Santa Gertrudis sobre matrizes Nelore comerciais e relata diferenças no peso dos bezerros à desmama. “Nas mesmas vacas em que insemino com touros Nelore de cabeceira, quando vamos apartar os bezerros, os filhos do Santa Gertrudis conseguem um peso a mais, entregando um bezerro ainda mais pesado do que o Nelore puro”, afirma.
Alves também destaca a habilidade materna e a produção leiteira das fêmeas resultantes do cruzamento. Os relatos dos produtores ilustram o potencial que eles observam nos animais, enquanto a avaliação genética oferece parâmetros para orientar a escolha dos reprodutores. Associar essas informações às condições de cada propriedade, aos objetivos de produção e à eficiência reprodutiva é essencial para buscar melhores resultados na pecuária de corte.–



