
Com base em dados, inteligência artificial e acesso à genética de qualidade, plataforma da erural transforma decisões no campo e atrai capital para redesenhar a eficiência do setor
A forma de produzir proteína animal entrou em um limite. Terra, custo e pressão ambiental já não permitem ganhos baseados apenas em expansão.
Projeções da FAO e da OCDE indicam que o consumo global de carne deve ultrapassar 374 milhões de toneladas até 2030, mais de 40 milhões acima da última década, pressionando o setor a produzir mais com os mesmos recursos.
Desse modo, a lógica da pecuária começa a mudar, e o novo eixo de crescimento é outro: produtividade. E, neste setor, ela começa antes mesmo do nascimento do animal.
O Brasil reúne um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, com mais de 230 milhões de cabeças, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ainda assim, a produtividade por animal fica atrás de países como Estados Unidos e Austrália, um reflexo direto da qualidade das decisões que formam o rebanho, como a escolha genética, o manejo e as estratégias de engorda adotadas pelos produtores.
“A diferença não está só no tamanho do rebanho, mas na qualidade das decisões que o constroem. Em mercados mais maduros, há um uso muito mais intensivo de melhoramento genético, o que resulta em animais mais pesados, ciclos mais curtos e maior eficiência produtiva. No Brasil, esse acesso ainda é desigual, e é aí que entra a tecnologia”, explica Matheus Ladeia, CEO da erural. A empresa intermedeia a venda de dois segmentos principais: o gado PO (Puro de Origem), com DNA registrado e voltado à reprodução, e o gado de corte, destinado ao consumo.

Matheus Ladeia, CEO da erural, reconhecido como uma das figuras mais influentes do agronegócio em 2026 na categoria Tecnologia e Inovação (Crédito: @wayfilmsbr)
Segundo ele, a plataforma atua justamente para democratizar esse acesso, ao digitalizar a comercialização de gado e ampliar o alcance de leilões, especialmente de animais PO (Puro de Origem), que concentram genética de alto valor. “Quando você conecta mais compradores a esse tipo de oferta, aumenta a liquidez e acelera a disseminação de genética de qualidade no rebanho. No fim, isso impacta diretamente a produtividade do país”, afirma.
É justamente nesse ponto que surge um nicho ainda pouco explorado no país: a articulação da genética bovina como ativo econômico. Um segmento dentro da pecuária que, apesar de técnico, tem impacto direto na escala de produção de proteína e na competitividade do Brasil no mercado internacional.
Essa valorização já se reflete em um mercado bilionário. Recentemente, leilões de gado de elite em Minas Gerais bateram recorde e movimentaram cerca de R$ 218 milhões. Em um dos casos, um terço de um único animal foi arrematado por R$ 1,98 milhão. Segundo a ABCZ, Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, a valorização está diretamente ligada ao avanço do melhoramento genético e aos sistemas de avaliação e ranqueamento, que elevam o valor de bovinos de alta qualidade a patamares milionários.
O avanço, porém, esbarra em um gargalo estrutural. O principal problema da pecuária brasileira não é a falta de tecnologia disponível, mas sim o acesso e o uso. Assim, genética, histórico reprodutivo, eficiência alimentar, taxa de prenhez e variáveis que determinam o resultado econômico ainda são subutilizadas na maior parte das fazendas.
“Isso acontece porque a maioria dos produtores, especialmente os de médio e pequeno porte, ainda toma decisões de reprodução de forma empírica, sem acesso a dados genéticos confiáveis ou sem saber como interpretá-los”, conta Ladeia.
O executivo ainda destaca que “há também uma perda enorme de eficiência no intervalo entre partos, na taxa de prenhez e no ganho de peso, que poderiam ser drasticamente melhorados com escolhas mais inteligentes de genética. O problema é que o mercado de sêmen e embriões de qualidade sempre foi concentrado, caro e de difícil acesso para quem está longe dos grandes centros”.
E assim, a leitura desse cenário passa, cada vez mais, por dados. Dessa forma, a erural passou a estruturar relatórios periódicos com base em dados primários de comercialização de genética bovina, cruzando volume de vendas, preços, desempenho por raça, idade e indicadores de mercado. Essa base cria uma nova camada de inteligência para o setor, ainda pouco disponível de forma organizada no país.
“Hoje, atuamos como uma articulação de dados da genética bovina. É um nicho dentro do nicho da pecuária, mas extremamente relevante e ainda pouco explorado”, descreve.
O tamanho desse desafio fica mais evidente nos números apurados pela erural. O Brasil possui aproximadamente 61 milhões de fêmeas em idade reprodutiva. São realizadas cerca de 15 milhões de inseminações artificiais por ano, resultando em 7,5 milhões de prenhezes. Ao mesmo tempo, cerca de 150 mil touros registrados são comercializados anualmente, com vida útil média de cinco anos, o que representa cerca de 750 mil touros ativos no país. Considerando que cada touro cobre cerca de 30 vacas, com taxa de concepção de 80%, isso resulta em aproximadamente 18 milhões de vacas prenhas com genética registrada.
Ainda assim, cerca de 36 milhões de vacas são cobertas por touros sem registro, o que significa produção sem rastreabilidade, sem controle genético e fora dos padrões exigidos pelos principais mercados compradores.
A proposta da empresa é interferir nesse momento: antes do animal nascer, antes do peso, antes do faturamento.
Com 15 anos de atuação, a erural já soma mais de 200 mil animais puros ofertados na plataforma, R$ 300 milhões movimentados em transações e cerca de 4 mil pecuaristas atendidos. A empresa também conta com sistema próprio de pagamentos, com mais de R$ 100 milhões sob gestão, e cuida ainda de todo o processo de logística para a entrega dos animais.
Com inteligência artificial, integra informações genéticas, zootécnicas e de mercado. “A plataforma cruza dados antes dispersos, como DEPs, genômica, histórico do rebanho e características do bioma, transformando decisões em ativo”, diz.
Isso significa democratizar o acesso à genética, algo que historicamente ficou concentrado em grandes produtores. Hoje, a plataforma mira principalmente pecuaristas com rebanhos entre 50 e 1000 animais, ou seja, a base da pirâmide produtiva.
“Antes, o acesso à genética de ponta era restrito. Hoje, conseguimos levar isso para pequenos e médios produtores em todo o Brasil”, conta.
Esse ganho não é apenas técnico, é econômico e sistêmico. Quanto maior o acesso à genética, mais eficiente se torna a pecuária, maior a produção de carne e mais competitivo o Brasil no comércio internacional. O impacto não fica na fazenda: mais eficiência por animal significa menos tempo até o abate, menor consumo de insumos e maior produção por hectare.
“Um touro com melhor desempenho pode gerar bezerros com 20 a 30 quilos a mais na desmama. Isso pode representar de R$ 500 a R$ 1.200 por animal. Em escala, estamos falando de dezenas de milhares de reais por ano, sem aumentar área”.
Segundo o executivo, trata-se de mais proteína disponível sem expansão proporcional de área. Produzir mais carne sem ampliar o rebanho, além do ganho de produtividade, é uma resposta a restrições ambientais e de mercado.
“É uma conta direta, já que mais genética acessível significa mais eficiência no campo, maior produção e maior capacidade de exportação. Estamos no limite dessa produção, isso ajuda a reduzir a escassez global de proteína”, comenta.
IA como inteligência de mercado
“Não existe um ‘melhor animal’ de forma absoluta, existe o animal mais adequado para cada sistema de produção, considerando clima, manejo, nutrição e objetivo do produtor”, afirma Matheus Ladeia. “A inteligência artificial não substitui a decisão do pecuarista, mas reduz significativamente a margem de erro ao trazer mais dados e previsibilidade. E erro, nesse setor, custa caro: uma diferença de apenas 20 quilos no peso à desmama, quando multiplicada por todo o rebanho, pode alterar de forma relevante a rentabilidade da operação”.
E assim, o uso de IA não se limita à recomendação individual: ele começa a alterar o funcionamento do mercado.
A erural também passou a operar como uma fonte de inteligência para o setor, ao analisar dados de comercialização e comportamento. “A plataforma consegue identificar, por exemplo, quanto vale um touro melhorador em determinado período produtivo, quais raças estão em valorização e quais características estão sendo mais demandadas”, explica.
Esse tipo de informação, antes dispersa, passa a orientar decisões de compra, venda e investimento, funcionando como uma espécie de “termômetro” da genética bovina no país.
“Quando analisamos padrões de busca e compra, conseguimos identificar movimentos antes de virarem tendência”, explica Ladeia.
Outro ponto central da proposta está na quebra de barreiras geográficas. Em muitas regiões do Brasil, especialmente fora dos grandes pólos, o acesso à genética de qualidade sempre foi limitado pela distância, conhecimento e pela falta de conexão com criadores especializados.
“Em muitas regiões, o produtor está a quilômetros de distância de qualquer oferta de genética. A plataforma resolve isso: ele pode acessar, comprar e receber o animal com maior segurança, custo x benefício e transparência”, descreve.
“Hoje, a operação já alcança praticamente todo o território nacional, com maior concentração no Centro-Oeste, Sudeste e partes do Nordeste, regiões que concentram o núcleo produtivo da pecuária brasileira”, destaca.
Investimentos na plataforma
Foi essa mudança de lógica que chamou atenção da Lighthouse, casa de venture capital com foco no Norte e Nordeste, que é investidor desde os primeiros momentos, e já investiu mais de R$ 5 milhões na startup para viabilizar o desenvolvimento do negócio.
“A pecuária movimenta ativos de alto valor, mas ainda opera com muita fricção e assimetria de informação”, diz Alexandre Darzé, sócio-diretor na Lighthouse.

Alexandre Darzé é sócio e executivo da Lighthouse
Para o investidor, o problema nunca foi a falta de oferta ou demanda, mas a dificuldade de conectar os dois com qualidade de informação. “O que chamou atenção na erural foi a combinação rara entre um mercado enorme, essencial para o Brasil, e ainda muito fragmentado, com baixa digitalização transacional. Boa parte das negociações ainda acontece de forma pouco padronizada e com assimetria relevante de informação entre compradores e vendedores”.
“Desde o início, não enxergamos a empresa apenas como um marketplace. Vimos ali a oportunidade de construir uma infraestrutura digital para a pecuária, capaz de organizar oferta e demanda, qualificar informações, aumentar liquidez e reduzir fricção nas transações”.
Para o investidor, o diferencial está justamente na combinação entre dados, acesso e eficiência produtiva. “A nossa tese sempre foi que a pecuária precisaria de uma camada digital mais sofisticada para ganhar produtividade e liquidez, se tornando uma plataforma vertical de mercado para a pecuária, combinando transação, dados, confiança, recomendação e serviços financeiros. A demanda global por proteína pressiona o setor a produzir melhor, com mais tecnologia, melhor genética e melhor uso de dados”.
Para o executivo da Lighthouse, essa visão dialoga diretamente com o que se descreve atualmente como a nova fase dos marketplaces na era da IA: categorias que antes eram difíceis de escalar por excesso de fricção, complexidade de matching, baixa recorrência ou custo operacional elevado podem ganhar uma “segunda chance” quando tecnologia e IA passam a reduzir esses gargalos.
Desse modo, a leitura da Lighthouse desloca a empresa de um marketplace para uma infraestrutura.
Além dos dados, a pecuária é, historicamente, um setor de confiança construído no contato direto. Feira, leilão, indicação. Assim, migrar para o digital não é automático. “O desafio foi mostrar que tecnologia não substitui a relação, ela melhora o resultado”, afirma Ladeia.
A aposta é combinar tecnologia com presença no campo, “sola de sapato”, como define o setor, para convencer o pecuarista de que o digital não substitui a tradição, mas amplia suas possibilidades.
Para a Lighthouse, esse movimento representa uma mudança mais profunda na natureza dos marketplaces. “Em mercados como a pecuária, o desafio não é simplesmente listar animais. É ajudar o produtor a comprar melhor, vender melhor, financiar melhor e tomar decisões com mais informação”. “A IA entra como um ‘middleman’ inteligente, capaz de qualificar oferta e demanda, reduzir fricção e melhorar o matching, algo que seria impossível manualmente nessa escala”. Ele ainda afirma: “Um marketplace tradicional mostra opções. Uma plataforma orientada por inteligência ajuda o usuário a decidir, executar e financiar a transação”.
Para o executivo, o futuro está em construir uma nova camada de inteligência, confiança e infraestrutura econômica sobre o mercado. “Esse tipo de transformação pode mudar a forma como a pecuária está estruturada e como ela funciona”, concluiu.
Sobre a Lighthouse: https://www.lhinvest.com.br/
Sobre a erural: https://www.erural.net/






