
- Possibilidade de um Super El Niño entre 2026 e 2027 reforça necessidade de incorporar adaptação climática ao planejamento estratégico das empresas do agronegócio
São Paulo, Julho 2026 – As mudanças climáticas já reduziram em mais de R$ 200 bilhões a renda gerada pela agropecuária brasileira, segundo estimativa baseada em estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O levantamento mostra que eventos climáticos extremos vêm comprometendo a produtividade do setor há décadas e reforça um alerta que ganha ainda mais relevância diante da possibilidade de um Super El Niño entre 2026 e 2027, fenômeno que tende a intensificar secas, enchentes e oscilações de temperatura em diferentes regiões do país.
Para Ana Luci Grizzi, especialista em governança de clima e natureza, o cenário reforça que eventos extremos deixaram de ser exceções e passaram a representar um componente permanente do planejamento empresarial.
“Durante muito tempo as empresas trataram os eventos climáticos como riscos pontuais. Hoje eles precisam ser incorporados às decisões estratégicas do negócio. O impacto não se limita à produção agrícola; alcança logística, abastecimento, disponibilidade de insumos, contratos, financiamento e competitividade.”
Embora o agronegócio esteja entre os setores mais diretamente expostos às mudanças do clima, os efeitos ultrapassam a porteira. Oscilações na produção afetam cadeias industriais, exportações, preços de alimentos, infraestrutura de transporte e o planejamento financeiro de empresas que dependem da produção agrícola.
Segundo a especialista, um eventual Super El Niño pode ampliar essa pressão ao provocar alterações significativas no regime de chuvas e na frequência de eventos extremos.
“O desafio não é apenas produzir menos em determinadas regiões. As empresas passam a conviver com maior imprevisibilidade, o que exige novas estratégias para gestão de riscos, continuidade operacional e adaptação das cadeias de suprimentos.”
Planejamento passa a ser diferencial competitivo
Na avaliação de Ana Luci, o tema deve ganhar protagonismo nos próximos anos porque investidores, seguradoras, instituições financeiras e reguladores vêm incorporando critérios climáticos às análises de risco.
Isso significa que empresas precisarão demonstrar capacidade não apenas de reduzir emissões, mas também de responder aos impactos físicos das mudanças climáticas.
“O mercado está caminhando para avaliar não apenas quanto uma empresa contribui para as emissões, mas também o quanto ela está preparada para operar em um cenário de maior instabilidade climática. A adaptação passa a ser um fator de resiliência empresarial.”
No agronegócio, essa preparação envolve desde investimentos em tecnologias agrícolas até diversificação de fornecedores, revisão da logística, monitoramento climático, gestão hídrica e avaliação da vulnerabilidade das operações.
O que muda na prática
Segundo Ana Luci, o momento exige que empresas avancem da reação para a antecipação. Isso significa incorporar os riscos climáticos ao planejamento estratégico, avaliando seus impactos sobre a produção, a logística e toda a cadeia de abastecimento. Também passa a ser necessário revisar planos de continuidade operacional para cenários de eventos extremos, fortalecer sistemas de monitoramento climático e de gestão de riscos, considerar diferentes cenários climáticos nas decisões de investimento e expansão e integrar a adaptação climática à governança corporativa.
“Empresas que conseguem antecipar cenários climáticos reduzem perdas financeiras, aumentam sua capacidade de resposta e fortalecem sua competitividade. Adaptar-se deixou de ser uma agenda ambiental para se tornar uma estratégia de negócios.”
Mudanças climáticas entram definitivamente na agenda corporativa
Para a especialista, o dado do BID evidencia que os impactos econômicos das mudanças climáticas já são mensuráveis e tendem a crescer caso eventos extremos se tornem mais frequentes.
“O prejuízo de mais de R$ 200 bilhões mostra que a mudança do clima deixou de ser um risco futuro. Ela já produz efeitos concretos sobre a economia. O próximo passo das empresas será transformar adaptação em uma competência estratégica, capaz de proteger operações, reduzir vulnerabilidades e preservar valor no longo prazo.”
Sobre Ana Luci Grizzi
Ana Luci Grizzi é conselheira independente, especialista em governança de clima e natureza. Atua assessorando empresas e conselhos de administração na incorporação de riscos e oportunidades climáticas e de natureza à estratégia de negócios, governança e conformidade regulatória, com foco em adaptação, resiliência e geração de valor de longo prazo.




